Moscatel: o eleito ou o esquecido de Setúbal?


 Revista de Vinhos nº 137 - Abril 2001                                                                                                                                 por João Paulo Martins

Quantos consumidores têm em casa uma garrafa de Moscatel de Setúbal? E quando é que o bebem? E a oferta do mercado é de molde a atrair ou a afastar os apreciadores? As respostas não são, quanto a nós, conclusivas.

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Quando se fala dos vinhos generosos portugueses há sempre três regiões que nos vêm à cabeça: o Vinho do Porto, o Vinho da Madeira e o Moscatel de Setúbal. Aqui há 30 anos atrás, a listagem incluiria também o Carcavelos mas, como se sabe, esse vinho está pouco menos que morto.
Actualmente, de todos estes vinhos, apenas o Porto conhece momentos de glória. O Moscatel de Setúbal, tema do painel de prova deste mês, já viveu momentos de glória mas actualmente está bastante esquecido pelos consumidores. A área de vinha que tem a possibilidade de dar origem a vinho Moscatel não excede os 330 hectares, superfície que pode ser suficiente em termos de mercado interno mas que não permite grandes voos em termos de projecção internacional. Ainda assim, esta área é enorme, se compararmos com a de Moscatel Roxo: 10,8 ha, quantidade que não está de acordo com a enorme qualidade desta variedade de uva. É de esperar, face à procura, que esta área de vinha venha a ser aumentada, para gáudio dos muitos apreciadores.
A quantidade de vinho certificada para Moscatel de Setúbal não se tem afastado muito dos 1 250 000 litros e de Moscatel Roxo apresenta grandes variações anuais: 7 700 litros em 98, 3 300 l em 99 e 8 500 l em 2000.


Só para consumo interno

O Moscatel é praticamente todo consumido nas zonas de Setúbal e Lisboa.
O resto do país não bebe e a exportação é muito reduzida: essencialmente moscatéis velhos, e para nichos muito pequenos de mercado situados na Noruega, Reino Unido e Estados Unidos. Fica assim por conhecer um vinho que, nem no próprio país tem o destaque que merece.

Percebe-se facilmente as razões do gosto de noruegueses e ingleses. Os moscatéis velhos são bebidas divinas - de que o vencedor desta prova é um bom exemplo - e em nada ficam atrás dos melhores tawnies produzidos pelo Vinho do Porto. Já os vinhos novos podem ser mais difíceis de agradar a grandes maiorias: apresentam por vezes alguns aromas metálicos, têm grande presença de aroma de farinha quando são muito novos e (ver caixa) nem sempre se apresentam limpos.

Ainda assim, é um vinho que deveria ser objecto de maior procura porque tem boas condições para agradar, mesmo aos consumidores mais exigentes.


Moscatel com algodão?

Muitos consumidores já se depararam com um fenómeno vulgar nos vinhos generosos de Moscatel: com o tempo em garrafa, o vinho tende a ganhar um depósito no fundo da garrafa e a ficar turvo (no caso da garrafa não ser manejada com os devidos cuidados).
Esta alteração do vinho não deveria ocorrer, uma vez que os vinhos são filtrados antes do engarrafamento e, por isso, não deveriam ganhar qualquer depósito. É o que acontece com os vinhos do Porto do tipo tawny: são filtrados e por isso permanecem limpos, independentemente do tempo que fiquem engarrafados. Qualquer garrafa de um Porto 10 anos ou 20 anos pode ser manipulada sem que exista o perigo da turvação. Ora tal não se passa com o Moscatel e aconteceu precisamente isso com várias amostras presentes neste painel de prova.
Segundo Domingos Soares Franco (DSF), enólogo da firma José Maria da Fonseca (JMF), este fenómeno foi detectado pela primeira vez em 1983, com os vinhos da colheita de 1980. Sem que se percebesse exactamente do que se tratava foram enviadas amostras para um laboratório suíço que sugeriu uma passagem do vinho ao carvão, para a retenção de polifenóis com bactérias que tinham sido detectados nos vinhos. Percebeu-se entretanto que a prática tradicional na região de apenas adicionar o sulfuroso (que funciona como desinfectante) quando a uva entrava na adega e não no mosto ou no vinho acabava por favorecer este fenómeno. Como medida preventiva, passou a adicionar-se o sulfuroso também na altura do engarrafamento o que evita a chamada bactéria do algodão, um bacilo vulgar nos vinhos licorosos e que pode fazer aparecer um "cachos" de bactérias dentro da garrafa que lembram farrapos de algodão. Ainda segundo DSF, as macerações demasiado prolongadas (quase um ano) que se praticam na região, acabam por extrair tudo de bom e de mau que a uva tem. Na JMF o tempo das macerações não excede agora os quatro meses. Conseguiu-se assim (mais sulfuroso e menores macerações) diminuir muito o depósito na garrafa.
Pode no entanto aparecer, embora com muito menor expressão, ao fim de 6 ou 7 anos.


Receita para Moscatel

A uva “moscatel” tem a característica de não perder a sua identidade durante a fermentação. O vinho toma assim muitos dos aromas da própria uva, tília, maçã e marmelo, toques florais que o identificam face a todos os outros vinhos.

Os nossos “Moscatel de Setúbal” são exuberantes, doces, de gosto poderoso e melado, sugerindo a sua utilização para acompanhar um pato com mel por exemplo. Não veria mal este vinho a acompanhar, pelo contraste, alguns pratos exóticos, como pratos com caril ou pratos com especiarias de Marrocos como a “pastilla” (com a aproximação ao açucarado) ou as tagines com limão.

Também a pastelaria marroquina com mel e especiarias faz uma bela ligação com o “Moscatel”, sendo com certeza interessante acompanhar a nossa “Tarte de amêndoa” do Algarve.

Criar uma receita específica para o Moscatel implica seguramente considerar: a uva que lhe dá origem, um prato que se possa bater com a estrutura pujante do vinho, a presença do adocicado e de especiarias. Jogando com estes factores, surgiu-me a ideia de utilizar o próprio vinho na confecção de um prato rico, poderoso e que garante um casamento memorável.

Eis a Receita:
Foie Gras inteiro, salteado em redução de Moscatel de Setúbal, com Uvas Moscatel

Ingredientes: (para 4 pessoas)

1 foie gras cru (cerca de 500 g)
1 garrafa de Moscatel de Setúbal
1 dente de alho
½ sumo de limão
15 g de açúcar
3 cl de caldo de galinha concentrado
30 bagos de uva moscatel

Preparação:
Lavar o foie gras, retirar-lhe o fel (normalmente já vem extraído) e secá-lo em papel de cozinha. Temperá-lo com uma mistura de sal (15 g), açúcar (5 g), pimenta (2 g) e um pouco de noz moscada.
Cobrir com filme de cozinha e reservar 6 h. no frigorífico.
Deitar o Moscatel numa caçarola e reduzi-lo lentamente (1 h. a 1,5 h.) a 1/5 do seu volume até ficar xaroposo.
Retirar as grainhas das uvas.

Finalização:
Esfregar o dente de alho numa frigideira antiaderente de fundo espesso. Selar o fígado com a frigideira bem quente até ficar dourado.
Retirar a gordura formada.

Levar o fígado a uma terrina ou cocotte oval que vá ao lume e regá-lo com a redução do Moscatel. Misturar o açúcar com o sumo de limão e adicionar. Adicionar também o caldo de galinha. Por fim adicionar as uvas.
Levar a lume brando durante cerca de 15 minutos, tendo o cuidado de regar o fígado com o molho formado.

Terminar com uma volta do moinho de pimenta e servir fatiado.


 

TRILOGIA

Moscatel de Setúbal s/ data
José Maria da Fonseca
Carregado na cor, denuncia a idade pelos tons esverdeados que apresenta.
Aromo muito rico, ligeiro ranço, fruta citrina confitada, algum vinagrinho, e fruto seco. Cheio e envolvente mas fresco e com um final interminável.
Será difícil fazer melhor.
$$$$$ –
19,5


ALAMBRE

Moscatel de Setúbal 20 anos
José Maria da Fonseca
Pressente-se a idade na cor, aroma evoluído mas muito limpo e fino, algumas sugestões de farinha, laranja e mel. Rico na boca, redondo, sentem-se passas de uva e figos. Muito bom final.
$$$$$ –
17,5


MOSCATEL ROXO

Moscatel de Setúbal Roxo 1995
SIVIPA
Carregado na cor e inicialmente muito fechado no aroma.
Só com o tempo no copo se vai mostrando mas não é um Moscatel fácil.
A prova de boca revela bons aromas, compotas e passas. Precisa de arejar mas depois mostra-se muito bem.
$$$ –
17


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal 1992
J. P. Vinhos
Cor ligeira, vê-se que não é velho, tem finura aromática, com sugestões de passas de farripa de laranja. Muito agradável na boca, ligeiro mas alegre, nada enjoativo.
Conjunto bem feito, embora menos ambicioso que em anteriores colheitas.
$$$$ –
16,5


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal s/ data
Xavier Santana
Sente-se um vinho novo, com algumas notas de caramelo e remédio. Melhora muito na boca onde se sente um vinho cheio, rico e longo, com muitos aromas de passa de uva.
$ –
15


ALAMBRE

Moscatel de Setúbal 1997
José Maria da Fonseca
Vinho novo mas muito limpo, não muito complexo mas também, o que é uma virtude, nada enjoativo. Não esmaga na boca mas dá uma boa prova, com algumas sugestões de compota.
Tudo bem “embrulhado”.
$$$ –
15


JP

Moscatel de Setúbal s/ data
J. P. Vinhos
Aroma pouco exuberante, alguns aromas terciários presentes, perfil correcto mas não ousado.
Melhora no copo, é macio e agradável. Tem alguma compota que lhe dá graça.
$$ –
15


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal s/ data
Caves Velhas
Ligeiro na cor, aroma linear com algumas notas de marmelada mas também algumas notas metálicas menos boas. Boa acidez, não é pesado e o conjunto resulta aceitável.
$$ –
14,5


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal 1983
Emídio Oliveira Silva
Carregado na cor, aroma onde se sente a falta da fruta franca. Melhora na boca onde se sente um vinho rico. O conjunto estaria melhor se o aroma fosse mais limpo.
$$$$ –
14,5


TIAMA

Moscatel de Setúbal s/ data
Rio Vinhos
Ligeiro no aroma mas limpo, está novo e tem algumas sugestões de laranja e canela.
Boca fácil e com elegância, não é pesado, é um bom Moscatel sem pretensões.
$$ –
14


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal s/ data
Emídio Oliveira Silva
Está um pouco empoado, tem algum cheiro de remédio, ainda aceitável mas sem complexidade. Muito doce na boca é um vinho que se bebe mas também que se esquece depressa.
$$ –
14


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal s/ data
Venâncio da Costa Lima
Vê-se que é novo, tem algumas notas aromáticas de caramelo mas também um pouco de remédio e pão. Um pouco melhor na boca, passa de uva, cheio, tudo no ponto certo. Não está mal.
$$ –
14


SETÚBAL

Moscatel de Setúbal 1996
SIVIPA
Aroma um pouco enjoativo com laranja e algum mel. Notas de remédio na boca, pouco corpo e sem grande final.
Um moscatel sem grande história para contar.
$$ –
13,5


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal 1996
Adega Coop. Palmela
Muito carregado na cor, aroma pesado com caramelo e pouco atractivo, não totalmente limpo ou, pelo menos, sugere um cansaço precoce. A mesma sensação na boca onde, apesar de tudo, surge encorpado e longo. Atendendo à pouca idade, o vinho surge desequilibrado.
$$ –
13,5


MOSCATEL DE SETÚBAL

Moscatel de Setúbal 1982
Adega Coop. Palmela
Pela cor, tão carregada, parece muito velho.
No aroma apresenta um ligeiro mofo e o resultado é um nariz pouco atractivo. Um pouco melhor na boca, não muito encorpado, final curto. Pena o aroma não estar mais limpo.
$$$ –
13


Classificação da Prova

19,5

• Trilogia


17,5

• Alambre 20 anos


17

• Moscatel Roxo 1995 - SIVIPA


16,5

• Moscatel de Setúbal 1992 J.P. Vinhos


15

• Moscatel de Setúbal

Xavier Santana

• Alambre 1997

• J.P. - J. P. Vinhos


14,5

• Moscatel de Setúbal

Caves Velhas

• Moscatel de Setúbal 1983

Emídio Oliveira Silva


14

• Tiama - Rio Vinhos

• Moscatel de Setúbal

Emídio Oliveira Silva

• Moscatel de Setúbal

Venâncio Costa Lima


13,5

• Setúbal 1996 - SIVIPA

• Moscatel de Setúbal 1996

Adega Coop. Palmela


13

• Moscatel de Setúbal 1982

Adega Coop. Palmela


Ficha de Prova

Tipo de Vinho: Moscatel de Setúbal

Tipo de Prova: cega

Região: Setúbal

Provadores: Redacção da Revista de Vinhos


Categorias de preço:

$ - até 600$00

$$ - entre 600 e 1000$00

$$$ - entre 1000 e 1800$00

$$$$ - entre 1800 e 3000$00

$$$$$ - mais de 3000$00


Classificação qualitativa:

0 a 9 – negativo, do vinho impróprio para consumo ao vinho com ligeiro defeito.

10 - vinho neutro, sem defeitos sensíveis mas também sem qualquer virtude. Apenas bebível.

11 a 12 – vinho simples, correcto, limpo, sem pretensões.

13 a 14 – vinho com qualidades evidentes, fácil e agradável de beber, sem complexidade ou longevidade.

15 a 16 – vinho de qualidade superior à média, com personalidade e alguma complexidade.

17 a 18 – muito bom vinho, de grande categoria e potencial.

19 a 20 – vinho excelente, fora do comum, que impressiona extraordinariamente os sentidos.


Nota: a indicação que sugerimos quanto ao momento do consumo, ou seja, para beber já, não invalida que estes vinhos possam viver muitos anos em garrafa.

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